As empresas estão preparadas para dar oportunidades à profissionais mais maduros?

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Idosos no trabalho

As empresas estão preparadas para dar oportunidades à profissionais mais maduros?

Muito se fala sobre o crescimento da população idosa no Brasil e os desafios que se apresentam quanto a família, saúde, sociedade, trabalho e outros tantos. Mas o que realmente está sendo feito ante a expectativa de vida que é de 76 anos e a projeção de um país com mais idosos do que jovens em 2060, como apontam os últimos dados do IBGE.

Ante esse cenário, um dos desafios que hoje tanto se fala é o do mercado de trabalho envolvendo idosos, ou seja, pessoas a partir 60 anos. Mas não só. Com apenas 43 anos de idade eu me encontro desempregada desde o começo do ano. Quando desligada da última empresa, achava que me recolocaria e não encontraria muitas dificuldades de voltar ao mercado de trabalho, mas descobri que com esta idade já sou considerada "velha". Me pergunto como será no decorrer dos anos que avançam.

Existem muitas razões para que um idoso - para alguns "melhor idade" - decida ou precise voltar para o mercado de trabalho: baixo valor da aposentadoria (quando se tem uma), complementação de renda para ajudar no sustento de netos e demais familiares, poder pagar um convênio médico, dívidas adquiridas durante a vida, morte do parceiro, entre outros.

Isso sem falar da parte psicológica e social, quando o idoso ou idosa adquiriu o gosto pelo trabalho que exerceu ao longo da vida por lhe dar sentido à sua vida, vontade e necessidade de manter-se ativo, acreditar que é o único meio de se manter vínculos de amizades, se sentir útil perante a família, comunidade e sociedade.

Pergunto: o mercado de trabalho está preparado para dar oportunidade para esses profissionais mais maduros, quando eu, com 43 anos, já encontro dificuldade de voltar ao mundo do trabalho?

No meu ponto de vista, não, principalmente porque se prega que o Brasil é um país sem preconceitos. Há muito a se desconstruir, e este é um deles. O mercado não quer gente acima dos 40 anos.

Mas, se já comprovado o envelhecimento populacional, a mão de obra no futuro próximo será fornecida pela pessoa idosa, ou estou enganada? Com esta informação, pergunto de novo: o setor produtivo privado ou público, está se adaptando e se reestruturando para essa nova faixa etária?

Por outro lado, as empresas podem se perguntar por que deveriam contratar alguém na terceira idade, levando em conta as condições de saúde física, biológicas e psicológicas: quais atividades poderiam exercer a partir do aspecto físico, a carga horária. realmente, há muito a se pensar no que se refere a segurança no trabalho e processos trabalhistas.

Mas lembrando que o IBGE aponta que em 2060 teremos mais idosos do que jovens, não vejo saída para o setor empregador começar a pensar e se preparar para esta nova realidade que já começa a bater à porta, e sem preconceitos.

Aliás, o preconceito e a discriminação, com certeza, é uma das maiores barreiras a serem trabalhadas e descontruídas, mas cabe às próprias empresas, instituições, setores privados ou públicos, encontrarem uma melhor forma que valorize o ser humano, independente de sua idade, preparando e conscientizando seus  colaboradores que ter profissionais mais velhos no mesmo ambiente de trabalho é natural. Exigir uma integração entre jovens e velhos que passem a dividir suas experiências e competências, aceitando no outro as suas condições físicas, biológicas e psicológicas e assim obter grandes resultados para o empregador.

Da mesma forma que os empregadores precisam começar a se adaptar a esta nova realidade é preciso preparar a população idosa para as novas necessidades do mercado de trabalho.

Acredito que os desafios do idoso no mercado de trabalho não são diferentes a outros desafios que envolve o envelhecimento: saúde, família, preconceito, sexualidade e tantos outros, cabe a cada um fazer sua parte para mudar esta realidade, lembrando que uma das únicas certezas que temos nesta vida é que em algum momento seremos velhos.

Eu, nos meus 43 anos, devo me despir dos meus próprios preconceitos, e acreditar que sempre haverá um lugar para recomeçar, mesmo que para isso eu tenha que me reinventar.

Relato da Simone Maria de Morais da Silva - Texto apresentado no curso de Educação Continuada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde.